Como o filho do poeta britânico Ted Hughes, Nicholas Hughes, se matou em março último, desencavei esse texto publicado originalmente no jornal belo-horizontino “O Tempo”, em 2001:
“Não faça versos com os acontecimentos”. O conselho de Drummond passou longe de Edward James Hughes, o Ted Hughes, viúvo britânico da poeta norte-americana Sylvia Plath (1933-1963), morto em 1998 aos 68 anos. Ele tinha boas rozões para entregar corpo e alma aos fatos ao compor, ao longo de mais de duas décadas, os poemas de “Cartas de Aniversário” (Birthday Letters), publicado poucos meses antes de sua morte. Em 1963, Plath se matou com gás de cozinha, depois de o marido tê-la trocado por uma certa Assia Wevil. O suicídio foi um prato cheio para a mídia, e feministas fizeram manifestações contra Hughes, acusando-o de assassinato. Anos mais tarde, a segunda mulher matou a filha e também se suicidou usando o mesmo método de Plath.
Mesmo com toda conversa e toda fofoca que essas tragédias alimentaram, o poeta preferiu permanecer calado por anos. Até que, quando a poeira já havia se assentado, trouxe à luz esse “Cartas de Aniversário”, remexendo nas feridas da vida a dois com Sylvia Plath. Há quem tenha visto a publicação como uma forma de defesa, mas não é bem assim. O livro desse pós-Dom Casmurro, sabedor de que só encontramos versão onde buscamos verdade, é um trabalho arqueológico, a rastrear os sentidos por trás do mistério do “caso Sylvia”. Ele nunca entendeu direito sua companheira, uma espécie de Ana Cristina César com duas colheres a mais de tragédia. Um pouco desse não entendimento traduziu-se em um comportamento bem “família”: Hughes queimou um dos diários de Sylvia Plath por achar que não deveriam ser vistos por seus filhos.
Havia entre Hughes e Plath também estranhamentos culturais. Há, nos poemas de “Cartas de Aniversário”, diversas referências irônicas à americanidade de Plath, traçadas pelo nariz velho mundo de Hughes. Mas engana-se quem só espera encontrar o lado monstro do Dr. Jekyl. A amorosidade de Hughes se inscreve nesse livro, mesmo quando ele fala de “caprichos” de Plath, como no poema “Febre” (Fever). “O que eu estava dizendo, no fundo, era: ‘Não faça drama’ “, escreve, mas completa adiante: “Era fácil/ Entreter tais pensamentos quando o tempo era tanto”, a deixar ver uma ponta de remorso.
Interesse vai além do contexto factual
“Cartas de Aniversário”, apesar do material que o alimenta, não é apenas um amontoado de factualidades versificadas. Os longos versos de Hughes, esse galês já visto como integrante da mesma família poética de T.S.Elliot, são uma espécie de latifúndio produtivo. Sua discursividade não é sinônimo de puro exercício retórico. Quem não vê a qualidade de estrofes como “Too many Alphas. Too much Alpha. Sunstruck/ with Alpha. Eye-sick,/ Head-sick, sick sick sick O/ Sick of Alpha. You kicked school it/ Collapsed Alphas”(”Excesso de notas Dez. Dez demais. Insolação/ De Dez. Vista enjoada,/ Cabeça enjoada, enjôo enjôo ah/ Enjôo de Dez. Você chutou a escola, ela/ Desabou em Dez”), na tradução de Paulo Henriques Britto?
A “trip” poética de Hughes começa no título. O solo remoto desse livro é a natureza xamânica da tradição oral celta, berço, na realidade, de toda a produção poética britânica. “Aniversário”, em inglês, é “Birthday”, que, literalmente, é “dia do nascimento”. É como se Hughes tentasse cavar o mistério de Sylvia Plath em sua origem. O poeta norte-americano Bob Hass, sugeriu, em uma entrevista, que a palavra “Birthday” certamente remete ao fato de os poemas terem sido escritos a cada ano no dia de aniversário de Plath. De qualquer forma, é uma retomada ritual, um sacramento cíclico.
Hughes enxerta seu tecido poético com títulos e versos de Sylvia Plath, como a exercitar uma leitura que lhe escapou nos anos em que viveram juntos. Um exemplo é o poema “The Machine” (A Máquina). Depois de citar frases que Plath “pôs na página”, lembra: “Enquanto isso/ Eu devia estar à toa,/ Talvez com Lucas, tão a mesmo/ Quanto meu cachorro”.
Releitura e ritual, esse cântico de Ted Hughes se mantém de pé nas quase quatrocentas páginas do livro, na densidade poética de versos como “In my position, the right witchdoctor/ Might have caught you in flight with his bare hands/ Tossed you, cooling, one hand to the other,/ Godless, happy, quieted./ I managed/ A wiisp of your hair, your ring, your watch, your/ nightgown” (”Em meu lugar, um bom curandeiro/ Teria apanhado você em pleno vôo com as mãos nuas/ E a jogaria de uma mão à outra, para esfriar,/Atéia, feliz, tranquilizada./ Só consegui/ Um fio dos seus cabelos, a sua aliança, o seu relógio, sua camisola”).
A tradução de Paulo Henriques Britto, cuja competência já é conhecida através de tantos trabalhos, derrapa ligeiramente aqui e ali por um certo excesso de retórica, em um esforço, talvez, de explicar certas frases elípticas de Hughes. Uma dessas “explicações” é a tradução do verso “The Ancient Mariner’s Death-in-Life woman”, que ficou assim: “Mulher da Morte-em-Vida do poema de Coleridge”. “The Ancient Mariner” (O Velho Marinheiro) é um poema de Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), sim, mas essa informação poderia vir em uma nota de rodapé. Essas coisas, porém, não tiram o velho brilho de Britto. Ted Hughes pode descansar em paz.