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Foto: Andy Howell

“Pode-se explicar o século 20 tendo o automóvel como ícone… sempre fui fascinado pelos movimentos que uma mulher faz ao sair de um carro.”  (JG Ballard)

O filósofo Jean-Paul Sartre não gostava de automóveis. Chegou a ter uma bicicleta, mas a abandonou depois de atropelar uma pessoa logo nos primeiros giros.

O escritor carioca Sérgio Sant’Anna, que viveu muitos anos em Belo Horizonte (MG), não gosta de automóveis.

O roqueiro Rodolfo não gosta de automóveis e destilou sua ira em alguns versos de “Eu quero ver o oco” (dos tempos da banda “Raimundos”): “Meu ódio por automores começou cedo/ Depois que eu tranquei os dedo/ Na porta dum opalão/ Meu pai de dentro se ria que se mijava/ Achou que o filho festejava/ Era dia de Cosme e Damião”.

Não tenho ódio por nada. Nem por automores. Não sou um ludista. Mas carros nunca me seduziram, nunca estiveram em meus planos de investimentos ou despesas. Isso não quer dizer que eu seja busófilo. Não, mas não gosto de automóveis.

Monlevade, o rincão mineiro onde vivo atualmente, é do tamanho de um ovo. Não daqueles de avestruzes, mas desses de frangas que cabem sem problemas em nossas mãos. Eu ando pra lá e pra lá, morro abaixo, morro acima. Confesso que certos olhares parecem traduzir a crença de que desfilar sem automotores é uma das muitas formas de pecado ou, então, um constrangedor atestado de pobreza.

Não gosto de automóveis. E tenho déficit de atenção, não me sinto exatamente o espécime humano ideal para se agarrar a volantes.

Acho que perdi uma velha namorada por eu não ter automóvel. Não que ela quisesse patrimônio. Não. Mas ela não parecia conceber o mundo sem automóvel e, como achava cansativo dirigir, gostaria de ter um homem como condutor, não só do seu coração, mas também de sua máquina. Meu lugar nessa história: fora.

Me seduz menos uma mulher saindo do carro do que se equilibrando sobre um par de saltos altos.

Uma bike, bem, até que rola.

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Foto: Gaelx

Nos anos 80, os trabalhadores metalúrgicos da então Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, em João Monlevade, travaram com a empresa uma queda de braço pela implantação de uma tabela de revezamento “mais humana”. Queriam pôr fim à semana de trabalho de sete dias ininterruptos, ter mais tempo para conviver com o povo de casa e do bar. Conseguiram a “tabela francesa”. 

Duas décadas depois, a empresa, já com o nome de “Belgo Arcelor”, conseguiu jogar a “tabela francesa” no lixo, em nome de aperfeiçoamento de gestão para permitir mais investimento, que deveria ser traduzido na duplicação da usina de Monlevade. Mais emprego, mais dinheiro. Ganhou apoios do comércio e de outros segmentos do empresariado. Ganhou também a pendenga. A duplicação não saiu. 

Atualmente, o assunto tabela de revezamento volta à mesa. A Arcelor Mittal (mais um nome, novamente, no engole-engole em que se tornou o capitalismo, como aquele velho alemão já previra) quer mudar de novo as regras. Operários e seus representantes sindicais reclamam que ficariam sem tempo para o convívio familiar e comprometeriam sua saúde. Mais pendenga a resolver.  

A trilha sonora para isso tudo bem poderia ser o samba “Três Apitos”, de Noel Rosa. João Antônio, o romancista de “Malagueta, Perus e Bacanaço”, disse uma vez que considerava “Três Apitos”, composição de 1933, uma das principais obras-primas da canção popular brasileira. Eu também acho.  

É claro que quase ninguém deixa de notar ali, no samba noelino, o embate entre o mundo desencantado do capitalismo e o desejo. É como se fosse assim: Eu quero você, mas a fábrica te toma.“Quando o apito/ da fábrica de tecidos/ vem ferir os meus ouvidos/ eu me lembro de você”. Antes, cantava-se a roupa da mulher, o vestido, etc. Agora, a roupa é produto que a mulher tem que fazer, na linha de montagem, que a distancia do sujeito desejante (ops!). 

A linha de montagem, a tabela de revezamento, o propalado choque de gestão. Três apitos.

A letra, ei-la: 

Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro   de   você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
E está interessada
Em fingir que não me vê 
Você que atende ao apito de uma chaminé de barro
Porque não atende ao grito
Tão aflito
Da buzina  do  meu  carro
Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé no agasalho
Nem no frio você crê      
Mas você é mesmo artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame  de  você  
Nos meus olhos você lê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente
Impertinente
Que dá ordens a você 
Sou do sereno  poeta muito soturno 
Vou virar guarda-noturno
E   você  sabe  porque
Mas você não sabe
É que enquanto você faz pano
Faço junto do piano
Estes versos pra você

Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
lembro de você
de você
você
você

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Foto: Bruno

Eu tenho sopro no coração. C’est vrai.
Sopro é um ruído que pode ocorrer em cavidades de certos órgãos do corpo humano. Ruídos intestinais não são chamados de sopro, mas não é isso o que interessa.
Certos ruídos intestinais não podem ser controlados pelos humanos, dependendo da região intestinal em que ocorram. O cólon sigmóide. Etc.

Eu tenho ruídos intestinais e estomacais até com certa freqüência. Para controlá-los, só mesmo um recheio de comida no estômago, em espaços de tempo não muito largos. Esse recheio de comida logo logo se sujeita aos processos normais do sistema digestório.

Os intestinos, conforme diz aquele livro publicado sob a chancela do Instituto Albert Einstein, que peguei ontem de novo, na minha estante, ainda guardam uma boa zona de sombra para a ciência.

Seres vivos são clonados, informações são gravadas em genes de bactérias, mas os intestinos e todos os transtornos – como contrações e ruídos – que provocam nos humanos continuam aí, como uma zona de sombra.

Na cultura mitológica védica, os intestinos são associados à serpente Vritra, mostrengo com boa dose de vilania. Há tempos, num texto sobre o melodrama mexicano “Como Água para Chocolate”, eu destacava o fato de a vilã ter “problemas de gases”. Vritra, a serpente.

Os intestinos são uma espécie de serpente – não necessariamente má – sobre a qual a ciência ainda não lançou o seu pretensioso jato de luz, talvez por estar mais preocupada em domar os sopros do coração. E olha que eu nem o quero domado.

C’est vrai. É verdade.

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(Texto escrito pelo sambista e pesquisador Nei Lopes, no blog dele)

Dia desses, relaxando da labuta, resolvemos no Lote ouvir uns discos desses de requebrar o esqueleto, desses que confirmam que nossos Deuses africanos dançam. E como dançam!
Sacamos então, lá da estante, discos com “muito balanço” e “pouco conteúdo”, incluindo aí muita guaracha, muito són, muito suingue, muito rhythm & blues, muita batucada, e, entre esses, uns disquinhos relançados do polêmico Wilson Simonal, naquela do patropi e da pilantragem. Foi aí que, ouvindo, sacando as idéias, analisando os arranjos, o clima e lembrando das pessoas envolvidas, nos veio à mente a seguinte pergunta:

Quem foi realmente o maestro Erlon Chaves? Por que morreu tão cedo, aos 41 anos, depois de ser consagrado como regente e ótimo arranjador de música popular; presidente do júri internacional V FIC (Festival Internacional da Canção); de “comer mocotó”; de “tirar altas chinfras”, cheio de “balanço e de veneno”; de transmitir aquela imagem bacana e auto-suficiente… e depois ser taxado de “crioulo nojento”, que “só gostava de loura”, que “não se enxergava” e “nem sabia o seu lugar”. E, afinal, de que morreu Erlon Chaves?

Nascido na capital paulista em 1933, Erlon foi – segundo o Cravo Albin – regente, arranjador, pianista, vibrafonista, compositor e cantor. Em 1965, depois de ter composto para a Tv Excelsior uma sinfonia que se tornou tema de abertura da emissora, mudou-se para o Rio, onde foi diretor musical da TV Rio e um dos idealizadores do I Festival Internacional da Canção em 1966. Até que chegou a quinta edição do famoso festival, em plena ditadura de Garrastazu Médici. E aqui passamos a palavra ao amigo Zuza Homem de Mello, através das páginas de seu primoroso livro A Era dos Festivais: uma parábola (Editora 34).

Para a apresentação de “Eu Também Quero Mocotó” , na final de 25 de outubro de 1970, Erlon resolveu incrementar ainda mais o happening, que já ocorrera na apresentação classificatória da música, quando sua Banda Veneno, somando 40 pessoas entre cantores e músicos (eta, banda larga!), fez platéia e jurados dançarem ao som da canção, feita mesmo pra dançar, só à base de riffs dos metais, ritmo de boogaloo (a moda black de então) . E aí anunciou, segundo Zuza: “Agora vamos fazer um numero quente, eu sendo beijado por lindas garotas. É como se eu fosse beijado por todas aqui presentes”.

“Na platéia foi uma vaia só. Nos lares, algumas esposas brancas engoliram em seco, ofendidíssimas, ao lado dos maridos”. E o happening rolou.

Só que, segundo nosso amigo Zuza, “o espetáculo de um negro sendo beijado por loiras no encerramento do V FIC foi demais para os padrões conservadores da época, e Erlon Chaves foi levado, dias depois, para um interrogatório na Censura Federal”, ao qual se seguiu a prisão, segundo consta, pela influência de esposas de alguns generais da Ditadura, ficando o músico, depois de libertado, proibido de exercer suas atividades profissionais em, todo o território nacional por 30 dias.

No caldo grosso do “Mocotó”, Erlon, acuado, limitou-se ao seu trabalho de arranjador – da mesma forma que Toni Tornado, pela BR-3 apresentada no mesmo certame, foi “convidado a sair do país”. E Wilson Simonal, seu parceiro e amigo, acabou acusado de delator em 1972, comendo a partir daí o mocotó que a Ditadura azedou.

Apesar do relativo sucesso dos discos com repertorio internacional da Banda Veneno, lançados de 1972 a 1974, a carreira de Erlon Chaves acabava ali, naquele festival que, segundo o nunca assaz citado Zuza, “deixou um rastro de racismo, uma marca de preconceito contra artistas da raça negra, aquela que contribuiu para a música brasileira, como também para a cubana e a norte-americana, com o elemento mais proeminente de seu caráter, o ritmo”.

Em 14 de novembro de 1974, Erlon Chaves, que transmitia a todos nós com seu talento, charme, sorriso e simpatia aquela autoconfiança que a nós todos ainda nos faltava, enfartou, quando olhava uns discos de jazz numa loja da zona sul, e morreu. No ato.

Será que morreu de seu próprio “veneno”? Este veneno de que nos faz querer também comer o “mocotó” dos espaços de excelência, das instâncias do poder, do conforto material, do acesso ao saber, do êxito, do respeito enfim!? Ou será que morreu porque era um “crioulo metido e pilantra”, que “não sabia seu lugar”, só “gostava de mulher branca” e “carro do ano”; que, de repente, quem sabe, queria até ver seus filhos – absurdo! – entrando pra uma boa faculdade ?!…

Você sabe?

só quero ficar quieto
não quero você perto
elefante no deserto

só quero ficar quieto
meus olhos nem estão abertos
este é meu teto:
bicho estranho escroto abjeto

mulher_biy.jpg 
Foto:  Biy

Um colega me disse que o problema do “Clube da Esquina” foi ter exilado da canção a mulher que passa.

Não sei se concordo ou não. Mas o comentário me veio à cabeça quando vi Netrovski e Ná Ozetti no “Café Filosófico”, na Cultura.

Netrovski disse exatamente o que eu já havia dito sobre “As Vitrines”, de Chico: que era um flerte rasgado com Benjamin – não o romance dele mesmo, o Chico, mas o filósofo, o Walter. Há até a menção explícita às “galerias”. Aquele papo de “flâneur”, etc.

 A mulher que passa.

Antes do Chico, o Netroviski lembrou do Braguinha de “Carinhoso”. “E pelas ruas vão te seguindo”. Etc.

A mulher que passa.

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Tirado lá do blog do Ricardo Aleixo.

Em 92, Tom Jobim subiu o morro da Mangueira para tocar piano. Naquele ano, ele se tornava também tema da Estação Primeira, num diálogo entre a sofisticação bossanovista do velho compositor e o samba de raiz. A nova residência de Helena Jobim, no bairro Santa Lúcia, está também perto de uma favela, a maior de Belo Horizonte, conhecida como Morro do Papagaio. Ela diz, no entanto, que a idade não permite subir o morro, mas gosta de observar as luzes acesas entre as parabólicas. “Parece um presépio”, compara.

O marido Manujel Malagutti compartilha do flerte com o morro. Ele questiona os comentários sobre a violência. Tem o hábito de andar pelo bairro bem tarde, às vezes por volta das 23h, acompanhado pela cachorra Shayra, quando não está sofrendo com mais uma crise de gota. “Gosto de andar em volta do açude, onde há aqueles bancos catalães, ao estilo de (Antoni) Gaudí”, diz.

( Esse texto aí em cima é fragmento de uma matéria que fiz sobre Helena Jobim, para um jornal belo-horizontino, dois meses após ela se mudar do Rio para Belo Horizonte, em 1999)

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Sentada em um sofá em seu apartamento no bairro Santa Lúcia, em Belo Horizonte, ao lado da vira-lata Shayira, Helena Jobim, a irmã do Tom, me disse há anos o seguinte: que o maestro lhe havia pedido várias vezes que escrevesse alguma letra para as melodias dele. Ela teria recusado por entender que a literatura, sua arte, é muito distinta da música.

Mas Helena confessou ter chegado a fazer pelo menos uma parceria com Tom Jobim, a canção “Não devo Sonhar”, gravada originalmente por Ângela Maria no LP “Ângela Maria Apresenta”, de 1956.

Fica aqui a informação para os responsáveis pelo acervo digital de Tom Jobim checarem, porque, na ficha catalográfica da música, o nome de Helena não aparece.

O endereço do acervo é:

www.jobim.org.

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