Wir Caetano
(Publicado no jornal belo-horizontino “O Tempo” em 23/03/1999)

A Galeria Kolams inaugura, hoje, exposição de esculturas do artista plástico Amílcar de Castro, 79, o mestre da “superfície domada, partida, dobrada”, como diz o título de um documentário do cineasta Newton Silva, o primeiro sobre o artista, realizado em 1981. São 12 esculturas, sendo 11 em madeira (baraúna) e uma em pedra (granizo), mais um desenho em grandes dimensões (4,5m por 2,10m). A mostra, que fica até o dia 10 de abril, já foi montada em São Paulo, em maio do ano passado, na galeria de arte Raquel Arnaud. As obras estarão à venda, mas o preço não havia sido definido até ontem.

Apesar dos comentários sobre os “novos materiais” utilizados pelo artista, tradicionalmente dedicado ao ferro, tais materiais não são tão novos assim em sua trajetória. Nos anos 50, morando no Rio de Janeiro, ele já fizera experiências com a madeira. O escultor faz questão de dizer que não há nada de novidade ou uma nova fase. “Fiz o mesmo que fazia com o ferro. Acho bom, é uma experiência. Estou sempre experimentando”, diz.

É exatamente isso que o visitante verá na exposição: a dobra, o vinco, o corte, a mesma “geometria sensível” que consolidou a assinatura estética de Amílcar de Castro. O “drama da forma”, como o poeta e crítico Ferreira Gullar já classificou a obra, se mantém na baraúna e no granizo.

Amarelo
Entediado com os comentários sobre sua obra e avesso a qualquer acesso da mídia, Amilcar parece traduzir em seu pequeno ateliê na rua Goiás, centro de Belo Horizonte, a estética do mínimo que caracteriza deu trabalho. Ali, ele trabalha só, cercado pelos materiais “rudes” que marcam sua trajetória como desenhista e escultor.

Um mundo estético onde a oxidação e a ferrugem têm mais a dizer do que a cor. Por isso, é com certa indiferença que ele comenta sua escultura construída para a área frontal da antiga sede da IBM (atualmente, sede dos Diários Associados), na avenida Getúlio Vargas, na capital mineira. Uma decisão que não partiu do artista acabou por transformar o trabalho em uma raridade em seu currículo artístico: a escultura foi pintada de amarelo. O pintor diz que já nem pensa naquela obra.

As discussões sobre os novos cenários das artes plásticas, imaterialidade e mesmo participação do espectador passam ao largo de Amilcar de Castro. Ele se mostra cético quanto à “leitura” que o espectador poderia acrescentar às suas obras expostas em via pública. Mas diz achar boa a experiência do Rio de Janeiro, onde uma escultura sua na rua Princesa Isabel acabou por transformar-se em abrigo para um mendigo. “Acho até interessante ele ficar lá”, comenta.

Trajetória do artista é única, diz o poeta Ferreira Gullar

Apesar da indiferença de Amilcar de Castro pelas abordagens teóricas de sua obra, não faltam referências sobre a singularidade de seu vocabulário estético. O poeta e crítico Ferreira Gullar acompanhou, reflexivamente, o trabalho de Amílcar deste os anos 50 e classifica a gramática do menos do artista como uma experiência sem paralelo no universo das artes plásticas. “A modernidade investiu no volume. Ele desceu ao básico. Reduziu a arquitetura ao plano, à própria origem do volume. A partir dessa superfície plana, ele começa a criar o volume, um volume virtual, que nasce do movimento das placas, dessa violentação da superfície plana. Não conheço outro com experiência semelhante”, diz.

Gullar afirma que “paralelamente a essa questão, Amilcar de Castro tem também o problema do material. A utilização do ferro bruto, genuíno , sem nenhum trabalho, nenhum polimento. Essa rudeza do material se coaduna com a própria rudeza da linguagem. Há um despojamento de tudo que é adorno, de tudo que não é essencial”.

O crítico cita um artigo que escreveu a respeito de Amilcar para a revista “Veja”, em que falava de uma “nova linguagem do ferro”. “Há também nele essa linguagem do metal, de como o metal fala na escultura”.

Elemento mineiro
Apesar da limpeza geométrica do trabalho de Amilcar, muito já se falou na presença do barroco em sua obra, manifesto em uma certa significação interior que afloraria na superfície áspera, dobrada e cortada. “Encaminhada ao longo de quatro décadas sob o fundamento do projeto construtivo, a escultura de Amilcar de Castro, contudo, carrega em seu destino um lastro barroco. Pois toda energia mobilizadora que se acha aninhada no interior da obra se manifesta na irrupção da matéria”, escreve o artista plástico e crítico Márcio Sampaio no catálogo da exposição da Kolams.

Ao lado isso, Sampaio aponta, na própria seleção dos materiais de trabalho, um certo caráter mineiro. “Ele se explicita pela indissociável presença do material empregado, a chapa de ferro, e continuará também evidente nas mudanças ocorridas, tanto em relação à utilização de novos materiais (granito), como nos processos e formas resultantes dessa escolha”, escreve Sampaio.

 

Importância do neoconcretismo é negada

Amilcar de Castro, mineiro de Paraisópolis (sul de Minas), morou no Rio de Janeiro entre 1952 e 1970. Na capital carioca, foi responsável pela reforma gráfica do “Jornal do Brasil” e trabalhou na revista “Manchete”, que era dirigida por Otto Lara Resende e tinha Ferreira Gullar na equipe de redação.

Na casa do crítico Mário Pedrosa, Amilcar acabou se enturmando com nomes como Ivan Serpa, Lygia Clark, Franz Weissmann e outros que viriam a compor o grupo neoconcreto, ramificação dissidente do concretismo paulista.

“O movimento não tinha importância, comenta Amilcar de Castro, a assinalar que nunca teve preocupação por manifestos. Ferreira Gullar, que se tornou o teórico-mor do neoconcretismo, lembra que nunca existiu um manifesto a orientar os trabalhos. No panorama dominado pelo discurso matemático do construtivismo de Max Bill, ele percebeu que aquele grupo de artistas em atividade no Rio de Janeiro estava realizando um trabalho que se direcionava pra outros caminhos.

“A arte concreta se encaminhava para os efeitos óticos, os espaços gráficos e acabou dando na ‘optical art’. Nosso movimento era antecipador de muitas coisas que viriam acontecer, inclusive a ruptura com o suporte”, diz ele, lembrando que a ideia de manipular as formas, comum ao grupo, veio do livro-objeto, experiência que ele teria iniciado. Gullar destaca, porém, que a reflexão sobre o novo caminho neoconcretista se deu a posteriori, a partir do trabalho que os artistas já vinham desenvolvendo.

Poema
Mas, apesar do convívio com Amilcar enquanto artista “neoconcreto”, o que Ferreira Gullar acabou por cristalizar de sua experiência com o escultur mineiro foi um incidente um tanto corriqueiro, à porta de um armarinho no Rio de Janeiro. Gullar conta que, junto com Amilcar, esperava um ônibus e viu, dentro de uma loja, uma caixa com uma série de pequenos objetos (xícaras, pratos e outras miudezas), o que lhe chamou a atenção. O poeta acabou por entrar para olhar de perto os objetos, mas teve que sair carrendo a chamado de Amilcar, porque o ônibus chegava.

A experiência, até banal, acontecida em 1955, transformou-se em um longo poema 32 anos depois, com o título de “Nasceu um Poema”, incluído no livro “Barulhos” (88), que diz, entre outras coisas: “Àquela tarde/ e próximo ao hospital da Polícia Militar?/ Talvez eu não lhe tenha dado tempo/ que o Amilcar estava ansioso/ e já se aproximava o ônibus Rio-Comprido-Leblon/ Assim me fui/ o poema ficou talvez/ imaturo/ parte no ar da loja/ parte como poeira/ em meus cabelos/ A verdade porém/ é que/ onde a poesia sopra/ por um átimo de tempo/ (de todo o tempo gasto no gás/ das galáxias/ rugindo)”.

“É um dos poemas mais bonitos que escrevi e o cita nominalmente”, destaca o poeta, que desde os anos 80 já não tem contato com o amigo.

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(Obs.: Amilcar morreu em 22 de novembro de 2002).

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