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Wir Caetano

(Publicado no jornal “O Tempo”, em 21/09/1998)

Ele é introspectivo e monossilábico. Mas, quando se trata de colocar palavras no papel, as coisas mudam: seu humor refinado fica extremamente à vontade. Assim é Luis Fernando Verissimo, 62 anos, um dos cronistas mais populares do jornalismo brasileiro, que estará em Belo Horizonte, amanhã, como convidado da série «O Escritor por Ele Mesmo», do Instituto Moreira Salles. Verissimo concedeu uma entrevista exclusiva a O TEMPO, via fax.  

Criador de personagens famosos como o Analista de Bagé, responsável pela «técnica do joelhaço», a politicamente crédula Velhinha de Taubaté e o detetive Ed Mort (que foi transformado em personagem de cinema por Alan Fresnot), Verissimo chegou também à TV. As histórias de «Comédias da Vida Privada», compiladas e refundidas pela TV Globo, tornaram-se um sucesso. No momento, está escrevendo um romance sobre a gula para a coleção de «Plenos Pecados» (Ed. Objetiva). que reúne sete autores, cada uma abordando um pecado capital. O livro, ainda sem título, tem lançamento previsto para o final do ano. 

Verissimo, que diz se considerar mais um jornalista, embora goste de ser chamado de escritor, começou a carreira jornalística como copydesk, em 1966, no «Zero Hora», jornal no qual, três anos depois, estreou suas primeiras crônicas. Seu primeiro livro, editado em 1973, deu início a uma vasta produção: já publicou mais de 30 livros.

Durante seu depoimento em «O Escritor por Ele Mesmo», será distribuída uma fita cassete com sua leitura da crônica «O Dr. Mindinho», do livro «A Mãe de Freud» (L&PM, 1985), e o «Evangelho Segundo Antônio», de Antônio Maia, publicada em «Com Vocês, Antônio Maria, 1994).

A série «O Escritor por Ele Mesmo», iniciada em 1997, em São Paulo, este ano foi estendida a Belo Horizonte e Poços de Caldas. Na capital mineira, o projeto já contou com a participação de Carlos Heytor Cony, Fernando Gabeira, Ivan Ângelo, Roberto Drummond, Márcio Souza, Lygia Fagundes, Telles e Ignácio de Loyola Brandão.

O TEMPO – O poeta Décio Pignnatari disse que a crônica é a Aids da literatura. Como você vê a afirmação?
Luiz Fernando Verissimo – Não sei o que o poeta quis dizer, por isso não posso comentar a frase. Se a crônica é uma infecção, espero que nunca descubram a cura ou a vacina, porque eu gosto dela.

Você tem uma característica não muito comum entre os cronistas de jornal: boa parte der de seu trabalho são crônicas de ficção. Isso tem a ver com o “gene literário” dos Veríssimo?
O fato de a crônica ser um gênero indefinido, em que cabe tudo, dá liberdade ao escritor para o que quiser com ela. Eu comparo um espaço regular e assinado no jornal com uma tenda de camelô em que o importante não é o que se vende, óculos escuros, pente ou CD pirata, mas o ponto. A crônica, ou mais precisamente o espaço regular e assinado, é um tabuleiro de camelô, não é uma loja especializada. E muitas vezes a ficção é uma decorrência do prazo de entrega. Quase sempre recorro à ficção quando tenho que escrever com antecedência e outro tipo de texto correria o perigo da desatualização. É aquela história: nunca escreva sobre a saúde do papa muito antes da publicação porque ele pode morrer no meio tempo. Quanto ao “gene literário”, não sei se isso existe.

 Certa vez, você disse ao cartunista Angeli que já roubou piada de seu filho. Jorge Luiz Borges via literatura como uma espécie de texto único constantemente retomado, reescrito. O humor é uma piada constantemente renovada, um eterno plágio que ainda faz rir?
Minha posição é: já que eu sou o autor dos meus filhos, as piadas deles são um pouco produção minha também. Mas não faço muito isso, não, e, quando faço, dou os créditos. Alguém já disse que existe um número determinado de situações cômicas e que só o que se faz são variações. Mas também existe um número fixo de notas musicais, o que não quer dizer que todas as músicas possíveis já foram compostas. É um pouco sobre o sexo: você pode imaginar  novidades e formas inéditas de fazer sexo, mas estará sempre limitado pelo, digamos assim, instrumental humano. Mesmo o dos contorcionistas. 

Seu humor é marcado por um grande número de referências a obras literárias, ao cinema, à música. Só para citar um exemplo: “O Gigolô das Palavras” é uma espécie de diálogo – talvez acidentalmente – com Octavio Paz, que já chamou as palavras de “putas”. Esse humor refinado acabou chegando à TV, com enorme sucesso popular. É uma forma sua de dar “biscoito fino às massas”?
Eu não conheço o texto de Paz sobre as palavras serem putas, portanto, no caso, não foi uma referência. Sempre fui um leitor voraz e unívoro, mas muito desorganizado e de má memória. Minha erudição, portanto, é superficial. Tenho a cultura geral que qualquer pessoa com a mínima predisposição para cinema, música, etc tem e sempre escrevo pressupondo que o leitor tem a mesma informação que eu. Portanto, não há a preocupação de fazer humor “fino” para consumo popular. Mesmo porque o nosso controle sobre o que fazem com a nossa criação, depois de criada, é mínimo. Você faz o que sabe fazer e espera que agrade, mas não tem nenhuma maneira de interferir no que acontece depois, na recepção do seu trabalho e no uso que fazem dele. 

Por falar em “Gigolô das Palavras”, você espera submetê-las à guerra da audiência? Afinal, a adaptação das histórias de “Comédias da Vida Privada” pela TV Globo arrebatou bons índices no Ibope.
O “Comédias” foi resultado de uma feliz combinação de talentos, como o do Guel Arraes, do Jorge Furtado, da equipe de redatores e dos bons atores da Globo. Os textos baseados em minhas histórias já tinham a contribuição de outros e, a parte do segundo ano do programa, os textos dos outros predominaram. O programa foi bem, mas acho que sempre foi mais um sucesso de estima e de crítica do que de público. Eu gostava muito. 

“Comédias da Vida Pública” é uma reunião textos sérios, comentários sobre fatos da vida pública. A vida pública continua sem graça?
Acho que se pode escrever com graça, ou pelo menos com informalidade, sobre qualquer assunto, até os mas tristes e deprimentes, como a situação social e política do Brasil. Eu não faço distinção, no sentido de pensar “agora vou botar gravata e escrever uma coisa séria”, mas, às vezes, quando a gente vê, está escrevendo de gravata, até de colete. 

Já que você é um animal político, como vê o comportamento do eleitorado nessas eleições, com a perspectiva de reeleição, com a perspectiva de reeleição de Fernando Henrique Cardoso, alvo constante de seu humor? A Velhinha de Taubaté continua atuante?
Dizem que animal político mesmo é a barata, que está aí desde a criação do mundo, porque sempre soube se adaptar às circunstâncias. A Velhinha de Taubaté virou atração turística porque era a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo. Hoje, talvez causasse sensação por não acreditar no Fernando Henrique Cardoso, cujo prestígio pessoal parece imune não só ao sue próprio governo como às suas próprias bobagens. Fazer o quê? É um triunfo da fachada, ajudada, claro pelo “Pensamento Único” que domina a imprensa, sobre a lógica. Mas o papel de Fernando Henrique no modelo é esse mesmo, o de fachada. Há uma lógica afinal. 

O cronista Luis Fernando Veríssimo é engraçadíssimo, mas o cidadão Luis Fernando Veríssimo é hipersério, monossilábico. Como o Analista de Bagé explicaria essa dicotomia?
Nem o Analista de Bagé explica.

“A carne mais barata do mercado é a carne negra/ que vai de graça pro presídio e para debaixo do plástico/ e vai de graça pro subemprego e pros hospitais psiquiátricos”, diz a canção de Seu Jorge, Marcelo Yuka e Wilson Cappellette. Eu a ouvi na voz negra de Elza Soares, num desses dias em que minha demanda de pretura se sentiu feliz, alimentada.

Mas essa referência à carne me leva mais longe, a outro “bróder”, o barroco Padre Vieira, que, certa vez, lembrou que os antigos costumavam ler o futuro nas entranhas de animais mortos. Essa leitura, dizia o padre, era uma superstição, mas fazia sentido, porque é na carne dos sofredores que está a verdade.

Verdade, no sentido metafísico, é uma palavra com lugar mais preciso na consciência barroca do século XVI do que no pensamento laico da contemporaneidade, mas não deixa de ter ainda seu lugar, ainda que matizado, dúbio. De qualquer forma, para não cairmos em discussões sobre que verdade é essa de que se fala, poderíamos dizer de outro modo: na carne de quem sofre está a história, essa outra, que escapa ao registro oficial.

É verdade (?) que certos turistas sexuais restringem sua demanda de pretura à demanda de carne, no caso, para uso culinário, dessa culinária metafórica produzida pela libido.

Mas nós, que acreditamos na outra história, essa que está fora dos registros oficiais, sabemos que a carne mais barata do mercado, por guardar tantas letras, tantas vozes de sofrimento – e de beleza – também inscritas nela, já se transformou em outra coisa. Em corpo, que –conforme disse um certo francês que se embriagava de barroco e psicanálise – é a carne povoada pela palavra, pelo sentido, pela cultura. Eu diria mais: essa carne negra, barata ou não, deve ser lida como gente, essa “coisa” que, ao ser tocada, faz que algo estranho aconteça. Como escreveu Ulisses Tavares: “uma coisa muita estranha acontece/ quando se toca em gente./ Experimente”. Mais ou menos assim.

Os humanos têm fome de sentido. Procuram o dito cujo por todos os lados, desesperados. Por isso, inventam que o sentido existe até onde ele é ausente.

Meu dia a dia é assim: parece ter sempre uma mensagem pulando na minha frente. Conheci uma garçonete outro dia. Se a conheci outro dia, é porque nunca a tinha visto antes. Andei na rua, pensei na dita cuja. Pimba! Lá está ela na esquina. Isso quer dizer que…

Não quer dizer nada. Não nos casamos. Nem mesmo nos tornamos namorados, nem amigos, embora eu tenha passado a vê-la toda vez que pensava nela.

O mundo é assim: um amontoado de mensagens pra ninguém. Até porque, ao contrário do que nossa fome de sentido nos faz crer, certas mensagens não são mensagens.

Tem um livro que eu não li, chamado “A Criação Imperfeita”, do físico Marcelo Gleiser, colunista da “Folha de São Paulo”, que, de certa forma, traduz o que quero dizer aqui. Ele desafia a idéia de que a harmonia é o princípio ordenador do universo.

Gleiser, pelo que li sobre o livro, demonstra que é o erro aleatório que produz quase tudo que existe no universo hoje.

Hélio Schwartsman, autor do artigo que serviu de referência para meu comentário sobre Gleiser, conclui que “o universo e a vida são o resultado de uma cadeia de erros e imperfeições”. Essa filosofia da ciência, que desafia uma tradição de milênios e milênios, parece, pelo menos para mim, bastante sensata. Se erro e imperfeição predominam no universo, isso que chamamos de sentido vacila.

O mundo é assim: esquisito, como eu já disse antes. Cheio de falsas mensagens. De coisas que parecem dizer algo, mas não dizem coisa nenhuma. Mensagens pra ninguém. Uma piada cheia de planetas, galáxias, buracos negros e silêncio.

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