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Pra relembrar, vai aí: 

Composição: Akira S. e Alex Antunes

Você dirige o automóvel
Eu lhe dirijo argumentos
Você digere alguns momentos
Mas cola seus olhos ao ponteiro
E cola o ponteiro ao vermelho
E cola o seu carro ao da frente
Você diz a verdade quando mente
Porque amplifica sua voz quando fala
Seu carro vai rápido como uma bala
Seu carro é irrefutável
Mas as vielas são inviáveis

Automóveis, atropelamento e fuga
Alvos móveis, atropelamento e fuga
Automóveis, automóveis, Atropelamento e fuga
Alvos móveis, atropelamento e fuga

Há sobre certos ombros largos
Menos que atrás dos olhos Brilhantes de quem sabe
É que sabe, que sabe (que sabe, que sabe)
E sabe muito antes de cada fato
Você sucumbe ao aparato
Você já vem enquanto eu ia
Só que você não viu nada por lá,
E A há há há

Você dirige o automóvel
Mas eu dirijo seus tormentos
A minha lógica pedestre
Vai ser seu atropelamento
Eu serei o responsável
Irresponsabilizável

Automóveis, atropelamento e fuga
Alvos móveis, atropelamento e fuga
Automóveis, automóveis, Atropelamento e fuga
Alvos móveis, atropelamento e fuga.

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(Telma Tavares e Roque Ferreira )

Ajoelhei no congá pra te esquecer
Acendi vela pra Deus me iluminar
Fui na Bahia fazer um canjerê
Num cortejo de fé andei no mar

Nem te conto as bocadas que zuei
Com tanta promessa de dor pra cumprir
Entre umas e outras eu fumei
Me entoquei, num cafofo em Acari

Na cachoeira de noite, me banhei
Pra lavar teu perfume barato, que ficou
Nem sei mais quantas bocas beijei
Em quantas madrugas molhei meu cobertor

Ainda bem que vovó saravô
Ainda bem que vovó saravô
Minha vó é show de bola
Aprendeu lá em Angola
Encontrou meu corpo aberto e fechou

Ainda bem que vovó saravô
Ainda bem que vovó saravô
Minha vó é show de bola
Aprendeu lá em Angola
Encontrou meu corpo aberto e fechou

Não tô mais na tua cola
Tirei meu pé da argola
Não tem caô

*********

No domingo, conhecei Luzia. A canção que rolava era essa aí.

“Olfato, paladar, tato, audição, visão: qual sentido é o mais importante para você?

“Se a gente consultar os manuais de fisiologia, verá que o olfato tem precedência história e embrionária (…)

Costumo dizer que percebo o mundo com as ventas e a goela e nem falo de nariz e boca por querer realçar a animalidade dos gestos. Com menos drama do que pressinto entre os semelhantes, não me assusta, antes atrai o que ronça e fuça. Para mim, não é manifestação do ‘demo’ como ente abstrado e encarnação do mal absoluto, mas manifestação divina, sagrada, da dádiva de ser bicho e mortal.”

Esse belo texto é do Leo Noronha, crítico de gastronomia do jornal belo-horizontino “O Tempo”. Foi publicado na edição de 12.03.2005.

Como o Dia Nacional da Consciência Negra, 20, passou sem que eu dissesse nada, deixo aqui um velho texto que escrevi em outro blog que eu tinha, o “Neguinho Negona”: 

fomos lá, o filósofo nietzschiano canadense-brasileiro jason manuel e eu, para dentro do centro cultural da ufmg, para acompanharmos o lançamento da revista “roda”, do festival de arte negra de belo horizonte (fan).
o rique estava lá, estava lá a veneranda e simpática maria antonieta (não aquela da revolução francesa, mas esta outra: a que já inscreveu sua história à frente da gestão pública da cultura em belô).
de repente, assim, do nada, luiza me aparece. a moça branca do orkut me parece preta, de repente. preta ela não é, mas minha demanda de pretura traduziu seu bronze numa espécie de adinkra que queria dizer: “a vida é cheia de desvios, curvas, altos e baixos”.
e lá fomos nós, depois, o filósofo e eu, com nossa preta luiza, já africanizada pelo meu sonho desejante, para uma sessão culinária no maletta. não uma sessão culinária da libido, mas esta outra, do estômago e das vísceras complementares, do sistema digestório. aí eu quis beijar a boca dela, mas resisti, vencido pelo molho à bolonhesa que ocupava a minha boca. acho que também não rolaria mesmo. eu estava suado, sem meu roll-on na bolsa, cansado e até um tanto entediado pelo que belô passou a significar para mim: um ligeiro mal-estar. e me sentindo feio como costumo me sentir. mais tarde, a puta milena – bolonhesa? -, loura, linda e giganta, sorriu para mim. eu sorri também. a roda da áfrica, esta continuou a bater e bate até agora. luiza.

pega_rodrigo-franca.jpg
Foto: Rodrigo Franca

Os dois pegaram amizade.
Depois, ela pegou um vírus.
Depois, ela pegou um filho.
Depois, ela pegou pensão.
Depois, ele pegou uma faca.
Depois, ele pegou cadeia.
Depois, ele pegou um vírus.

casal.jpg
Foto: Luciane Gomes

O nome dela é J. Eu a conheci há muito tempo. O mundo dela era desses que mães, pais, tios e tias costumam chamar de um mundo de devassidão. Devia ser. Nunca pensei que um dia eu fosse chamá-la pra morar comigo. Chamei.

Isso foi um dia, já tardio. Antes, houve um churrasco na casa da irmã dela, um homem, constrangimentos, muito choro pela manhã. Marlene – esse nome eu posso falar – me consolou.

Depois, J. de novo. Aí, já queria morar comigo. Chegou a se entregar a alguns atos falhos, tanto era a fantasia. Mas o destino, ou sabe-se lá o quê, essa coisa difícil de nomear, me empurrou pra longe. Ela era insuportável quando bebia. Não dava. Já era tardio.

Um casal não se formou. Mas poderia ter se formado.

Os casais esquisitos são a tradução do mundo.

Os inocentes de coração e de tutano parecem acreditar que as atrações, supostamente calcadas na moldura física, dão a dimensão do universo da afetividade. Resposta: são inocentes de coração e de tutano.

O mundo é esquisito. É mesmo. As pessoas, que acham que o mundo é a casa delas – é, sim, mas é também a de um monte de bichos estranhos, bactérias e vírus virulentos – tentam traduzir essa esquisitice em chaves de leitura que se resumem a beleza, amor, desejo, interesses e oportunidade. Mas a esquisitice tem dimensão maior.

O padre Vieira escreveu que a linguagem de Deus não é a linguagem dos homens. Ele disse isso pra justificar a morte de alguém na guerra, alguém que consultara o Senhor e recebera a resposta de que não morreria. A linguagem de Deus, disse o português, não é a linguagem dos homens. Portanto, não dá pra traduzir em normalidade o que é esquisito.

Esse o mundo. A linguagem do mundo não é a linguagem dos homens. Os homens querem imprimir sua linguagem no mundo, a ponto de confundir uma coisa com a outra – a linguagem dos homens e o mundo – , mas o mundo não é a linguagem dos homens. O mundo é o mundo, esquisito. Os casais também.

mundodosoutros.jpg
Foto: Michael 

Numa velha prova para concurso de mestrado, li um texto interessante sobre a cultura de “segunda mão” em que nós – os não poliglotas, pelo menos – mergulhamos ao longo da vida.

A formação de quase todo mundo é feita assim: à base de traduções. Sem falar nas compilações, não só do “Reader’s Digest” – referencial de tantas gerações por muitos e muitos anos -, mas também, por exemplo, nas versões simplificadas de clássicos que costumam circular em cursos de línguas.

O mundo que se constrói em nossa medula mental é este: o dos outros, dos tradutores, dos compilares, dos citadores e por aí vai.

Já é muito sabida e quase folclórica a história da descoberta de “Don Quixote” por Jorge Luis Borges: ele leu o livro primeiramente em uma tradução para o inglês e, ao conhecer o original espanhol, pensou que este é que era uma tradução ruim da versão inglesa.

Li “Il Gattopardo”, de Lampedusa, somente em inglês, há muito tempo. Em compensação, quando, no curso de “Tradutor/Intérprete” – que não concluí -, tivemos que ler “Mice and Men”, pude mergulhar no palavreado roceiro que Steinbeck imprimiu ali, embora minhas colegas de classe – sim, além de mim, só havia mulheres – preferissem uma edição facilitada, para iniciantes.

Sem ser um dos trigênios vocalistas ou coisa parecida, sempre aspirei a deixar roçar a minha língua num punhado de línguas vivas e outro tanto de línguas mortas. Gago, acabei por tropeçar muitas vezes até mesmo nesse idioma tipo “faça-você-mesmo” que é o inglês. Leio numa boa, traduzi poemas com certa maestria, mas falar, não falo. Sou gago, pô.

Só a capacidade de brincar no monociclo da língua dos outros é que nos torna capazes de não sermos apenas escravos (em uma espécie de servidão voluntária) do mundo dos outros, esse mundo dos produtores de versões.

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