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Publicado originalmente no extinto jornal monlevadense “O Momento”, em 04 de janeiro de 2007.

No mês passado, estive em uma cidade do Circuito Estrada Real, a trabalho. Depois de enfrentar uma estrada pontuada por buracos e quebra-molas sem sinalização, sentado no banco do carona de um fusca amarelo produzido por metalúrgicos muitos anos atrás, fui direto procurar o banheiro do terminal rodoviário. Foi lá em frente que o carro parou, por não encontrar a “casinha” noutros lugares.

Lá vou eu. Decepção imediata ao ver que, no exato lugar onde deveria haver um vaso sanitário, havia simplesmente um fosso turco, pronto para oferecer desconforto aos visitantes. Isso mesmo: apenas um buraco revestido com cerâmica, onde é necessário ficar de cócoras como um canguru.

A cidade está lá, com a memória do ouro até a medula e abrigada em meio ao dinheiro que salta da mineração (a tal “grana que ergue e destrói coisas belas”, como cantou o baiano). Estranho, portanto, que aqueles fossos turcos resistam ali, como a persistência de uma faceta do passado que não traz bem nenhum. E digo “bem” tanto no sentido moral ou ético quanto no patrimonial.

Aqueles fossos turcos, sem querer, sem nenhuma maldade embutida neles, já que são mais irracionais do que uma lagarta ou uma minhoca, acabam se erigindo como uma triste metáfora da dificuldade em se implantarem novos padrões culturais em certos rincões (sem qualquer sentido pejorativo), mesmo que as condições materiais já tenham criado a viabilidade para dar alguns passos diante. E olhem que um velho alemão do século 19 dizia que, para entender um povo, é necessário prestar mais atenção no modo como ganham a vida (as tais, “condições materiais”) do que em suas ideias.

O que acontece é que, às vezes, a vida nova está em nossa volta, muitas das novas ferramentas necessárias estão, mas nossas ideias, essas estão lá atrás, num fosso turco, sem nem mesmo pegar carona num fusca qualquer para tomar outro rumo.

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Andrea Vialli, no seu blog Sustentabilidade

A notícia vem do jornal The Guardian. Quem diria. O uso de papel higiênico “macio e branquinho” pode ser mais danoso ao planeta do que comer fast food ou dirigir Hummers – o utilitário adorado pelos americanos e conhecido por beber galões e mais galões de gasolina.

O veredicto foi dado por ambientalistas americanos, que elegeram o prosaico papel higiênico como o vilão da vez. Isso porque, nos EUA, o papel utilizado para fabricar o toilet paper vem de matas nativas. E mais: os produtos químicos usados no branqueamento do papel também são nocivos ao meio ambiente e causam poluição, alegam.

“Esse é um produto que usamos por menos de três segundos. Mas as consequências ecológicas de sua fabricação são enormes”, diz Allen Hershkowitz, cientista do Natural Resources Defence Council, e ativista da causa.

Nos EUA, 98% dos rolos de papel higiênico são feitos de florestas nativas. Na Europa e América Latina, até 40% do papel do rolo é de origem reciclada. No Brasil, as marcas costumam mesclar o papel de origem reciclada com papel virgem – que vem de florestas de cultivo, é bom frisar.

A campanha dos ambientalistas não tem o intuito direto de pedir às pessoas que deixem de usar papel higiênico por causa das florestas. Dificilmente funcionaria, por razões óbvias. A campanha mira os fabricantes de papel, para que produzam com mais responsabilidade ambiental. De toda forma, o Greenpeace elaborou um “ranking ecólogico dos produtos de higiene pessoal” para orientar o consumidor.

E os leitores, até que ponto abririam mão do conforto por uma causa ecológica?

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Isso mostra que minha proposta de invenção do spray limpa-bunda é excelente.

O texto abaixo foi extraído de matéria que escrevi no jornal “O Tempo”, publicada em 31 de março de 1999. Fiz algumas modificações para tirar as marcas temporais.

Música brega é, geralmente, identificada como “música de corno” – pela temática frequente do marido traído. Mas o termo “brega” não é ligado apenas aos cornos. Tem conotação também de zona boêmia, como lembra o Dicionário Aurélio. Caetano Veloso explorou esse sentido em seu livro “Verdade Tropical” – no qual o cantor e compositor defende que “brega” teria nascido na Bahia, mais precisamente em Salvador, onde a rua Manoel da Nóbrega reunia bordéis baratos.

De acordo com a argumentação de Caetano, a placa de identificação da rua acabou por quebrar-se e nela se lia apenas “brega”. Segundo Caetano, essa palavra teria vindo, assim, a ser associada ao reduto de prostituição, e a expressão “música brega” aos “boleros de puteiro”.

O músico Luiz Tatit, professor de linguística da USP, entende que, apesar do sentido pejorativo original, o termo “brega”, hoje, tem uma aplicação ampliada.

“A expressão acabou por caracterizar uma música extremamente romântica, lenta”, avalia Tatit, para quem o termo ganhou espaço, principalmente, nos anos 80, em oposição ao rock, que tinha dizimado o elemento romântico, passional.

Tatit diz que a música brasileira sempre oscilou entre a vertente rítmica (como o rock e o samba) e a melódica. “A música brega é a mais melódica. Ela demora nas notas, para mostrar o timbre, a presumida beleza. Já havia brega na voz de Roberto Carlos”, destaca Tatit.

O músico e pesquisador rastreia essa presença do brega também em grupos como Titãs, Paralamas do Sucesso e, principalmente, o Skank – “que já nasceu em cima disso que hoje chamamos de brega”.

Nos anos 90, argumenta Tatit, há um grande convívio das vertentes rítmicas e melódicas. “O pagode tem levada mais dinâmica, mas acrescentou efeitos do brega”, ressalta. Para o pesquisador, também o sambão e a chamada axé music conjugam a música de ritmo e a de ênfase na melodia.

O poeta e músico Marcelo Dollabela, autor do “ABZ do Rock Brasileiro”, concorda com Luiz Tatit sobre a presença constante do brega na música brasileira. Segundo Dollabela, “nossa música sempre teve essa dualidade: ou ritmada ou lenta”.

Dualidades
O brega tem duas correntes, de acordo com Dollabela: uma viria do bolero e seria encarnada em nomes como Anísio Silva e Waldick Soriano, entre outros; outra corrente, que viria desde a jovem-guarda, seria fortemente marcada pelo hiper-romantismo.

“Essa tradição da música romântica no Brasil vem desde os anos 30, 40. Com a industrialização, ficou mais realçada, porque o pessoal do interior deslocou-se para os grandes centros e passou a haver, aí, a demanda por esse tipo de música que já existia na área rural, no circo, e tem raízes até lusitanas”, lembra Dollabela.

O poeta e pesquisador comenta também que, naturalmente, ao logo dos anos, o brega no Brasil acabou ganhando outras roupagens, com melhor ou pior acabamento. “O próprio Raul Seixas, um dos principais ícones do rock no cenário brasileiro, começou daí”, ressalta.

Faz tempo que não vejo Fernando Fiuza, colega de trabalho nos anos 90, em Belo Horizonte, e que, conforme soube, vem enfrentando uns problemas de saúde.

Artista plástico e fotógrafo, já clicou com suas lentes muita gente do mundo da música mineira, território que lhe é bem familiar.

Fiquem com duas fotos dele. Na primeira, a cantora lírica Sylvia Klein (que é de Coronel Fabriciano, mas passou anos e anos de sua juventude em Monlevade) e Paulo Santos, do Uakti. Na outra, ela também, claro. Ambas são do livro “Retratos da Música” (1986), que Fiuza me deu há anos.

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O título do post é trecho da epígrafe do livro, buscada em Roland Barthes: “A máscara é o sentido quando é absolutamente pura…”

Mais um texto de meu baú.
Esse foi publicado em 23/03/1999 (jornal “O Tempo”).

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