Wir Caetano

Publicado n’O TEMPO em 16/12/1998

Um homem maduro e um verdadeiro cidadão. São essas imagens que a monarquia brasileira tentou – e conseguiu – construir em torno de seu último imperador, Dom Pedro 2º. O trabalho de consolidação dessa boa imagem também trouxe às insígnias européias (dos Bragança, Habsburgo e Bourbon) um colorido tropical.

Essas são as ideias básicas que Lilia Moritz Schwarcz, professora do Departamento de Antropologia da USP, explora no livro “As Barbas do Imperador – dom Pedro 2º, Um Monarca nos Trópicos”, que será lançado amanhã, no auditório BDMG Cultural, encerrando a temporada 98 do projeto Sempre um Papo.

Resultado de tese de livre-docência de Lilia, o livro traz um vasto acervo iconográfico, através do qual ela procurou decifrar o monarca e a sua imagem nos olhares da elite e do povo.

“Na época do doutorado”, recorda a pesquisadora, “estudei as instituições do segundo reinado, o que resultou no livro ‘O Espetáculo das Raças’ (1993). Aí, percebi que faltava [estudar] o rei, que teve o cuidado de preservar sua imagem para a posteridade. Fui a Juiz de Fora e à Bahia. Vi, então, que havia uma grande quantidade de imagens. Levantei um total de 2 mil e incluí 1200 na tese e 700 no livro. Resolvi usá-las como argumento, elas vão entrando no texto”, conta.

Leia trechos da entrevista que a pesquisadora concedeu, por telefone, a O TEMPO.

O TEMPO – A imagem do pai (Dom Pedro 1º) foi a de um homem romântico e mulherengo, enquanto a do filho (Dom Pedro 2º) foi discreta e bem-comportada. Quando começa a construção da imagem de Dom Pedro 2º?

Lilia Moritz Schwarcz – O livro é uma mistura de biografia e de ensaio. Desde o nascimento, Dom Pedro 2ª já é anunciado como imperador. As imagens de sua infância não mostram nada de privacidade, mas de oficialidade. Ele está sempre com a roupa cheia de insígnias. Desde criança, ele é uma pessoa pública. E por que a imagem que se guardou foi de um homem mais velho? A memória nacional selecionou essa imagem para construir uma que fosse o oposto da do seu pai. Ele tinha que ficar como uma pessoa serena, um mecenas.

Não há dúvida de que Pedro 2º amava o Brasil. Mas o fato de ser neto de Dom João – de ser um Bragança – fez com que ele mantivesse laços estreitos com Portugal. Ao mesmo tempo, é sob seus auspícios que se coloca em movimento o projeto de construção nacional. Gostaria que a senhora falasse um pouco a respeito desse conflito.

Tento tratar no livro o lado paradoxal da independência. Tento diferenciar o que normalmente é visto como normal. A independência foi feita por Portugal. Costumo brincar que, nesse caso, não serve o ditado: “quem vai ao ar perde o lugar”. Dom Pedro (1)º foi para lá e manteve os dois reinos. O que vai acontecer aqui [no Brasil] é uma releitura dos símbolos da monarquia de Bragança. A monarquia foi escolhida como forma de governo porque se acreditava que só a monarquia poderia unificar um país como o Brasil. Os rituais monárquicos eram longínquos (por terem inspiração européia), mas a insígnia tinha elementos locais. Um exemplo é a murça de papo de tucano. Dizia-se que a murça era um presente dos índios. Mas, na verdade, o verde e amarelo eram cores de Bragança e Bourbon. Há que se observar também o fato de que, quando Dom Pedro 2º vai assumindo a maioridade, passa a se envolver com uma série de instituições, como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que vai criar o indigenismo romântico. Portanto, na monarquia, há uma mistura de rituais de Habsburgo com símbolos brasileiros, ou melhor com uma idealização de símbolos brasileiros.

O imperador teve grande paixão pelo daguerreótipo e foi também o primeiro monarca a ser fotografado. Se a imagem ideal do imperador se sobrepunha à sua realidade física, qual o lugar da fotografia no modo com que a população percebia o imperador?

A fotografia teve um lugar importantíssimo no contexto do Segundo Império. Numa análise comparativa, percebi que os monarcas europeus não se deixavam fotografar porque viam a fotografia como arte burguesa. Eles demoraram a perceber que a fotografia também servia para multiplicar sua imagem. No nosso caso, Dom Pedro 2º queria substituir a imagem de grande imperador pela de monarca-cidadão. E, convenhamos, o que mais combina com a imagem de monarca-cidadão é fotografia, porque representa o moderno.

Para falar como Sérgio Buarque, dom Pedro 2º seria um rei cordial?

Sérgio Buarque mostra que o termo “cordial” não quer dizer “bonzinho”. “Cordial” vem de “cors, cordis” (latim), coração. Nesse sentido, tudo se dá, então, na esfera da intimidade. Dom Pedro 2º financiou Gonçalves de Magalhães para ele fazer um grande épico nacional. Veja bem: neste épico, um índio prevê a vinda da família real e também o reinado de Dom Pedro 2º. Ademais, era baseado num documento do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que também era financiado por Dom Pedro. O quadro “A Primeira Missa” era inspirado em Gonçalves Magalhães, que, por sua vez, se baseava em Bento Lisboa. Veja como o círculo se fecha. Ele financiava os historiadores que guardavam sua memória e os pintores que fariam sua imagem (ideal) do império.

Parece que Pedro 2º já nasceu “afrancesado”. Também fora da corte havia o esforço de “europeizar” o império?

Meu livro tenta ver que, de alguma maneira, o Brasil se “europeizou”, e a monarquia se “tropicalizou”. É a primeira vez que a “sociedade de chinelos” passa a ter restaurantes. De um lado, há uma europeização e, de outro, uma tropicalização.

As barbas do imperador serviram para reforçar a imagem de sua maturidade. Pode-se dizer que suas barbas, de certa forma, ajudaram a legitimar o seu reinado?

A princípio, eu não queria usar o título “As Barbas do Imperador” porque não parecia sério. Mas notei que a barba é fundamental na iconografia política. Quando há o movimento pela maioridade de Dom Pedro, comenta-se muito sobre a falta de barba. Por volta dos 17 anos, fala-se que sua barba era uma penugem, e as representações passam a mostrar essa penugem. Na hora da morte, o Nadar (daguerreotipista), para dar destaque à barba, usa cola. Na biblioteca particular do monarca, achei um livro intitulado “A Antropologia da Barba”. Ela (a barba) era o ícone da sabedoria e da maturidade.

 

Estudo indica que o sábio Dom Pedro 2º foi uma invenção

Um velho mito dos índios jê-timbira narra a origem do homem branco. Tudo teria começado com Aukê, filho indesejado da mãe Amcukwéi, que era uma menina. A mãe tentou matar o menino várias vezes, mas ele tinha o poder de transformar-se em qualquer animal, conseguindo, portanto, escapar sempre. Até que um dia, o tio consegue matá-lo pelas costas e queimar o seu corpo. No final, conta o mito: “Algum tempo depois, Amcukwéi pediu aos chefes e conselheiros que mandassem buscar as cinzas de Aukê (…). Quando os dois chegaram ao lugar, descobriram que Aukê tinha se transformado em homem branco: construía uma casa grande e agora criava negros (…) e cavalos de madeira do bacuri. O rapaz chamou os dois enviados e mostrou-lhes a sua fazenda. Depois mandou chamar Amcukwéi para que morasse com ele. Aukê agora é o imperador dom Pedro 2º, pai dos brancos”.

O relato, incluído por Lilia Schwarcz em “As Barbas do Imperador”, permite várias leituras, segundo a autora. Por um lado, anuncia uma situação de desigualdade, mas, ao misturar cosmologias, mostra uma das muitas visões que cercaram o imperador: “Pai de todos os brancos, na versão do mito jê; Dom Sebastião nos trópicos, em um transplante do mito português introduzido por Bonifácio; rei que divide a realeza com o príncipe Obá, o qual percorre as ruas do Rio; paródia do rei do Congo com sua rainha Ginga. Pedro 2º, por meio de cada uma dessas imagens, é um “monarca de muitas coroas”. De certa forma, o monarca foi uma “invenção”. Como cita Schwarz, “não nasceu; foi fundado”.

A construção da imagem do imperador tinha suas razões. O Brasil, no século 19, era uma grande população de escravos negros com uma considerável contingente de mestiços. Em 1808, quando a família real portuguesa chegou ao Rio de Janeiro com um cortejo de 20 mil pessoas, a província não tinha mais do que 60 mil almas.

Segundo Lilia, a família real procurou “repatriar o teatro da corte” que tinha por fim consolidar “uma nova ‘lógica do espetáculo’,  que objetivava, entre outras coisas, criar uma memória, dar visibilidade e engrandecer uma situação, no mínimo, paradoxal”. Dom Pedro 1º não atendeu perfeitamente ao teatro; não consolidou uma imagem de seriedade. Essa tarefa caberia ao filho.

 

Anúncios