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Foto: Viewblur – licença CC  

Animado pelo meu encontro com um poema do carioca Chacal (ícone da poesia marginal, dos anos 70/80), numa divertida trama com o personagem “Genival Bundamental”, no blog do colega Ronaldo Bressane (veja post abaixo), fui buscar em meus arquivos uma entrevista que fiz com o poeta. Achei. Foi em 1998, durante a Bienal Internacional de Poesia, em Belô, onde ele esteve para mostrar sua mistura de poesia, rock e funk.

Até hoje, há entre a crítica literária muita gente que torce o nariz para os poetas marginais, por ver neles um pessoal desinformado e excessivamente espontaneísta. Nikolas Behr, que, de desinformado não tem nada, já deu uma resposta com ginga: que gosta mesmo é da poesia rala 

Na entrevista com Chacal, toquei no assunto, lembrando que a marginália investia muito em recitais, que, às vezes, eram verdadeiros shows de oralidade. “As avaliações negativas da poesia marginal não teriam a ver com o fato de que só se olha o registro escrito?”, perguntei. Ele não titubeou: “Exato. Avaliar a poesia marginal no papel não faz sentido”.

Mas eu, que, pelo menos até então, não costumava me encantar com recitais, nem mesmo quando eram shows de oralidade, bati na tecla: “Você não acha que recital de poesia ainda hoje tem um jeito conservador?” Chacal, então, mostrou a ginga de sua inteligência:

“Há vários tipos de recitais. Há um que é só ler poesia e não me interessa. Outro é o que o “Nuvem Cigana” (grupo que existiu entre 1975 e 1979 e do qual Chacal era integrante) trouxe e que envolve o corpo. A fala é corpo, passa por muitas regiões sombrias do organismo. Aí entra a gíria, que é a ginga da fala, e a ginga é a gíria do corpo. O “Nuvem Cigana” recuperou a língua falada, porque a própria poesia pedia isso. Estávamos recuperando o modernismo à enésima potência”.

Em tempo: a trama poética do “Genival Bundamental está no livro “Belvedere”, o mais recente do poeta Chacal.  

Chacal é bundamental

Segunda-feira Junho 04th 2007, 7:04 pm
Arquivado em: verso, livros

sou trocador de ônibus.
tenho 35 anos e quero me casar.
ter mulher, filhos, um lar.
meu nome é bundamental.
uma tarde, o coletivo parou
num ponto da praça seca.
subiu uma moça que era um sonho.
branca, peluda, dentes bons.
e que perfume!
meu nome é bundamental
quando passou na roleta, num ímpeto súbito,
a pedi em casamento.
meu nome é bundamental. genival bundamental
ela olhou pra mim e disse sim.
ali mesmo por cima da roleta
entre os passageiros, um beijo
selou nosso pacto sagrado.
meu nome é genival bundamental.
cuidei de tudo. alianças, igreja, padre, cerimônia.
no dia fatal, meu nome é genival,
eu lá. eu e o padre. ela nada.
uma hora duas nada.
enfim, chega o sacristão com um bilhete.
“querido bundamental
fui feliz enquanto amor entre nós houve.
agora vou ser feliz com um pé de couve.
daquela que um dia foi seu poema,
maria helena.
ps: a vida é curta para ser pequena.”

meu nome é genival. genival bundamental.

De Belvedere, antologia de Chacal a sair pela Cosacnaify

Quer conhecer o blog do Ronaldo Bressane? Clique aqui, ô!.

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Foto: Dorlis (Organic Soul Crew)

Aguarde o texto.

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Foto: blog http://fumacas.weblog.com.pt/

NÃO HÁ GOZO ONDE HÁ GOZAÇÃO. 

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Foto: Fernando Dall’Acqua – licença CC

Quando eu era adolescente, não sabia latim, que só arranharia mais tarde, no curso de letras. Talvez seja por isso que a palavra orientatio , que encontrei num livro de Mircea Eliade, historiador de religiões, tenha ficado na minha cabeça. O romeno se referia aos procedimentos humanos para se orientar no mundo, o caminho para cá e para lá, o alto e o baixo, direita e esquerda, um prosaico de-onde-vim-onde-estou-para-onde-vou.

Orientatio sempre me vem à cabeça quando me vejo tomado por imagens de uma de minhas grandes obsessões: terminais rodoviários. Os terminais, menos enquanto equipamentos urbanos e mais como aquilo que não vemos, assim, de cara: o esforço para que funcionem, a orquestração humana para administrar o nomadismo, o nosso fluxo terreno mundo afora.

Como fazer para as pessoas chegarem lá? Ou aqui? Ou esperarem minutos, horas. E comerem coxinhas. Ou sanduíches com alface dentro. E suco de laranja. E demorarem o corpo em vasos sanitários. Olhando relógio. Filhotes. Travesseiros no chão. Malas. Rodas. 

Essa prosaica arquitetura para  tornar palatável o nosso pé na estrada.

O resto é a arte de perder. Perder-se.

Aeroportos, ferrovias, portos.

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Foto: Magnus Alexander

“Esse trapo”. Foi essa a melhor expressão que o filósofo francês Pascal, do século 17, encontrou para traduzir o humano. Há quem veja Pascal como um herdeiro de Lucrécio, o romano, nascido no século 1 antes de Cristo, num período em que o império dos césares estava na lama. Lucrécio não tinha muitas razões para não achar tudo um lixo. Só bem mais tarde, um baiano cantaria: “se o mundo é um lixo, eu não sou”.

 

No poema “Outros, o mesmo”, o poeta Ricardo Aleixo pergunta: “Ora, Pascal, porque não / esse texto? / Pense bem: poder ser / outros / (…) / um / palimpsesto”.

 

Esse papo sobre trapo e texto é motivado por matéria que li há um mês mais ou menos. Pesquisadores conseguiram gravar informações em genes de bactérias. Dizem que esse suporte biológico é mais seguro do que um chip, e o método de gravação permite preservar os dados mesmo em casos de mutação genética bacteriana.

 

Como esse mundo, conforme apontou um biólogo brasileiro, é mais das bactérias do que dos humanos – elas são em maior número e têm vencido a guerra entre as duas espécies -, poderá chegar um momento em que o cenário do planeta será este: humanos findos, bactérias sobreviventes.

 

Aí, o trapo poderá ainda resistir como texto, como memória gravada nos genes do inimigo. Um palimpsesto (manuscrito que contém textos sobrepostos, por raspagem e reescrita), para ser lido por outra onda de humanóides, quando a espécie renascer das cinzas, bilhões de anos depois.

 Kurt Vonnegut 

Essa viagem aí em cima pode ser lida como uma homenagem a Kurt Vonnegut, que morreu em abril, aos 84 anos, sem que eu lhe dedicasse umas linhas. Norte-americano de ascendência germânica, Kurt tinha um humor ácido, destilado em livros como “Galápagos” e “Cama de Gato”. Nele, o futuro revela o “trapo” que a predatória cultura humana produz. Acho que ele era leitor de Lucrécio.

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