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Estive no velório da cantora Neide Roberto por volta das 12 horas da sexta-feira, 22. Ainda havia pouquíssimas pessoas.

Deixo aqui minha saudação-homenagem.

Na última sexta-feira, 22, gravei minha segunda participação no programa “Viamundo”, da Rádio Inconfidência, a “Brasileiríssima” (100,9 FM). Desta vez, decidi falar sobre o livro “Cartas de Aniversário”, do poeta britânico Ted Hughes, um cara de história muito trágica.

Não sei ainda quando meu comentário vai ao ar. Isso deve ser definido esta semana, segundo a produção do programa. Quando souber, aviso o horário também.

Minha primeira participação no “Viamundo” foi no dia 27 de abril, quando falei sobre o livro de contos “Rasif – Mar que Arrebenta”, do pernambucano Marcelino Freire.

Como muita gente em Monlevade não consegue sintonizar no dial a Inconfidência (que pode, porém, ser acessada via Internet – http://www.radioinconfidencia.com.br), adianto aqui o conteúdo da minha segunda gravação.

O limite de tempo que a rádio nos dá é de dois minutos. Então, é preciso ser objetivo e focar apenas em um ou dois detalhes importantes do objeto a comentar. E é bom pôr algum tempero, para os ouvintes que gostam de literatura, música e outras coisas boas desse tipo.

Leiam aí:

Arqueologia da prosa familiar

Em março de 2009, o biólogo britânico Nicholas Hughes se enforcou, aos 47 anos. Essa tragédia tem um detalhe especial: ele era filho do poeta inglês Ted Hughes e da poeta norte-americana Sylvia Plath, que se matou com gás em 63.

A morte de Nick faz se mexer nas estantes, mais uma vez, o livro “Cartas de Aniversário” (Birthday Letters), publicado na Inglaterra em 98, mesmo ano em que o poeta morreria, vítima de câncer. A obra ganhou tradução brasileira um ano depois, nas mãos de Paulo Henriques Britto, pela Record.

Em “Cartas de Aniversário”, Ted Hughes, cuja segunda mulher também se matou usando o mesmo método de Sylvia, faz uma arqueologia da prosa familiar.

Em longos versos marcados por factualidade, a driblar o velho conselho drummondiano “não faça versos com acontecimentos”, Ted tenta entender os mistérios do “caso Sylvia”, mulher que, em vida, ele nunca entendeu direito.

O solo remoto do livro é a natureza xamânica da tradição oral celta, berço de toda a boa produção poética britânica. É a partir desse solo que Ted tenta ler a tragédia abrigada ali, nas miudezas do afeto e do confronto.

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Se o arquivo estiver demorando muito para abrir ou, então, não abrir de jeito nenhum, faça o seguinte:
– Clique sobre o link, aperte o botão direito do mouse e clique na opção “salvar destino como”. Aí, você poderá salvar o e-book em seu computador.

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Arte: Wir Caetano – sobre foto de Rodrigo Moraes/Flickr.com

A atriz Dira Paes comemora 25 anos de carreira.
Nada de Solineuza. Me lembro aqui é da Kika de “Amarelo Manga”, do Cláudio Assis.

O personagem é um tanto improvável, mas a Dira é bacana.

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Dira, ao lado de Cláudio Assis, encarnando “Kika”.

Como o filho do poeta britânico Ted Hughes, Nicholas Hughes, se matou em março último, desencavei esse texto publicado originalmente no jornal belo-horizontino “O Tempo”, em 2001:

“Não faça versos com os acontecimentos”. O conselho de Drummond passou longe de Edward James Hughes, o Ted Hughes, viúvo britânico da poeta norte-americana Sylvia Plath (1933-1963), morto em 1998 aos 68 anos. Ele tinha boas razões para entregar corpo e alma aos fatos ao compor, ao longo de mais de duas décadas, os poemas de “Cartas de Aniversário” (Birthday Letters), publicado poucos meses antes de sua morte. Em 1963, Plath se matou com gás de cozinha, depois de o marido tê-la trocado por uma certa Assia Wevil. O suicídio foi um prato cheio para a mídia, e feministas fizeram manifestações contra Hughes, acusando-o de assassinato. Anos mais tarde, a segunda mulher matou a filha e também se suicidou usando o mesmo método de Plath.

Mesmo com toda conversa e toda fofoca que essas tragédias alimentaram, o poeta preferiu permanecer calado por anos. Até que, quando a poeira já havia se assentado, trouxe à luz esse “Cartas de Aniversário”, remexendo nas feridas da vida a dois com Sylvia Plath. Há quem tenha visto a publicação como uma forma de defesa, mas não é bem assim. O livro desse pós-Dom Casmurro, sabedor de que só encontramos versão onde buscamos verdade, é um trabalho arqueológico, a rastrear os sentidos por trás do mistério do “caso Sylvia”. Ele nunca entendeu direito sua companheira, uma espécie de Ana Cristina César com duas colheres a mais de tragédia. Um pouco desse não entendimento traduziu-se em um comportamento bem “família”: Hughes queimou um dos diários de Sylvia Plath por achar que não deveriam ser vistos por seus filhos.

Havia entre Hughes e Plath também estranhamentos culturais. Há, nos poemas de “Cartas de Aniversário”, diversas referências irônicas à americanidade de Plath, traçadas pelo nariz velho mundo de Hughes. Mas engana-se quem só espera encontrar o lado monstro do Dr. Jekyl. A amorosidade de Hughes se inscreve nesse livro, mesmo quando ele fala de “caprichos” de Plath, como no poema “Febre” (Fever). “O que eu estava dizendo, no fundo, era: ‘Não faça drama’ “, escreve, mas completa adiante: “Era fácil/ Entreter tais pensamentos quando o tempo era tanto”, a deixar ver uma ponta de remorso.

Interesse vai além do contexto factual

“Cartas de Aniversário”, apesar do material que o alimenta, não é apenas um amontoado de factualidades versificadas. Os longos versos de Hughes, esse galês já visto como integrante da mesma família poética de T.S.Elliot, são uma espécie de latifúndio produtivo. Sua discursividade não é sinônimo de puro exercício retórico. Quem não vê a qualidade de estrofes como “Too many Alphas. Too much Alpha. Sunstruck/ with Alpha. Eye-sick,/ Head-sick, sick sick sick O/ Sick of Alpha. You kicked school it/ Collapsed Alphas”(“Excesso de notas Dez. Dez demais. Insolação/ De Dez. Vista enjoada,/ Cabeça enjoada, enjôo enjôo ah/ Enjôo de Dez. Você chutou a escola, ela/ Desabou em Dez”), na tradução de Paulo Henriques Britto?

A “trip” poética de Hughes começa no título. O solo remoto desse livro é a natureza xamânica da tradição oral celta, berço, na realidade, de toda a produção poética britânica. “Aniversário”, em inglês, é “Birthday”, que, literalmente, é “dia do nascimento”. É como se Hughes tentasse cavar o mistério de Sylvia Plath em sua origem. O poeta norte-americano Bob Hass, sugeriu, em uma entrevista, que a palavra “Birthday” certamente remete ao fato de os poemas terem sido escritos a cada ano no dia de aniversário de Plath. De qualquer forma, é uma retomada ritual, um sacramento cíclico.

Hughes enxerta seu tecido poético com títulos e versos de Sylvia Plath, como a exercitar uma leitura que lhe escapou nos anos em que viveram juntos. Um exemplo é o poema “The Machine” (A Máquina). Depois de citar frases que Plath “pôs na página”, lembra: “Enquanto isso/ Eu devia estar à toa,/ Talvez com Lucas, tão a mesmo/ Quanto meu cachorro”.

Releitura e ritual, esse cântico de Ted Hughes se mantém de pé nas quase quatrocentas páginas do livro, na densidade poética de versos como “In my position, the right witchdoctor/ Might have caught you in flight with his bare hands/ Tossed you, cooling, one hand to the other,/ Godless, happy, quieted./ I managed/ A wiisp of your hair, your ring, your watch, your/ nightgown” (“Em meu lugar, um bom curandeiro/ Teria apanhado você em pleno vôo com as mãos nuas/ E a jogaria de uma mão à outra, para esfriar,/Atéia, feliz, tranquilizada./ Só consegui/ Um fio dos seus cabelos, a sua aliança, o seu relógio, sua camisola”).

A tradução de Paulo Henriques Britto, cuja competência já é conhecida através de tantos trabalhos, derrapa ligeiramente aqui e ali por um certo excesso de retórica, em um esforço, talvez, de explicar certas frases elípticas de Hughes. Uma dessas “explicações” é a tradução do verso “The Ancient Mariner’s Death-in-Life woman”, que ficou assim: “Mulher da Morte-em-Vida do poema de Coleridge”. “The Ancient Mariner” (O Velho Marinheiro) é um poema de Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), sim, mas essa informação poderia vir em uma nota de rodapé. Essas coisas, porém, não tiram o velho brilho de Britto. Ted Hughes pode descansar em paz.

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