“A carne mais barata do mercado é a carne negra/ que vai de graça pro presídio e para debaixo do plástico/ e vai de graça pro subemprego e pros hospitais psiquiátricos”, diz a canção de Seu Jorge, Marcelo Yuka e Wilson Cappellette. Eu a ouvi na voz negra de Elza Soares, num desses dias em que minha demanda de pretura se sentiu feliz, alimentada.

Mas essa referência à carne me leva mais longe, a outro “bróder”, o barroco Padre Vieira, que, certa vez, lembrou que os antigos costumavam ler o futuro nas entranhas de animais mortos. Essa leitura, dizia o padre, era uma superstição, mas fazia sentido, porque é na carne dos sofredores que está a verdade.

Verdade, no sentido metafísico, é uma palavra com lugar mais preciso na consciência barroca do século XVI do que no pensamento laico da contemporaneidade, mas não deixa de ter ainda seu lugar, ainda que matizado, dúbio. De qualquer forma, para não cairmos em discussões sobre que verdade é essa de que se fala, poderíamos dizer de outro modo: na carne de quem sofre está a história, essa outra, que escapa ao registro oficial.

É verdade (?) que certos turistas sexuais restringem sua demanda de pretura à demanda de carne, no caso, para uso culinário, dessa culinária metafórica produzida pela libido.

Mas nós, que acreditamos na outra história, essa que está fora dos registros oficiais, sabemos que a carne mais barata do mercado, por guardar tantas letras, tantas vozes de sofrimento – e de beleza – também inscritas nela, já se transformou em outra coisa. Em corpo, que –conforme disse um certo francês que se embriagava de barroco e psicanálise – é a carne povoada pela palavra, pelo sentido, pela cultura. Eu diria mais: essa carne negra, barata ou não, deve ser lida como gente, essa “coisa” que, ao ser tocada, faz que algo estranho aconteça. Como escreveu Ulisses Tavares: “uma coisa muita estranha acontece/ quando se toca em gente./ Experimente”. Mais ou menos assim.

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