Wir Caetano
(Publicado n’  “O Tempo” em 14/11/1998)

Quem quiser chegar lá tem que enfrentar as ladeiras íngremes de Sabará. Mas vale a pena. Na rua Mármore, com grande inclinação e sem saída, que desemboca numa espécie de pântano, fica o escritório de Vergílio Arthur de Lima, luthier (fabricante de instrumentos musicais de cordas), que já inscreveu seu nome em currículos de pessoas como o bossanovista João Gilberto. “Restaurei o primeiro violão do João”, conta Lima.

Ele tem algo em comum com o baiano: gosta de tranquilidade para poder se entregar à total concentração. Isso explica a opção por viver em Sabará, cidade onde nasceu, apesar da clientela internacional. O cenário do seu escritório é de muita madeira, arame e silêncio. Desse ambiente, que tem sua dose de reduto operário e ascetismo, saem violões clássicos, violas caipiras, cavaquinhos e bandolins. Para quem? Inútil perguntar. O luthier que, além de João Gilberto, já atendeu nomes igualmente exigentes como Egberto Gismonti, prefere citar números.

Ele produz aproximadamente 25 instrumentos por ano, dos quais quatro ou cinco atendem ao mercado externo. Desde que começou na atividade, há 20 anos, já produziu – afirma com exatidão – 393 instrumentos.

“Aqui não tem nem telefone”, diz ele, com a simplicidade de um artesão. Vergílio, 47 anos, é formado em ciências biológicas e tem suas raízes na marcenaria e na restauração de instrumentos.

Clássico

A história do “fazedor” de instrumentos começou na família. Seu pai, Arthur Lima, morto em 1982, era um economista que tocava violino. A mãe, Verônica dos Santos, 78 anos, professora primária aposentada, tocava piano. O avô também estava perto da futura atividade de Lima: era construtor de gaiolas de passarinhos. Mas foi por volta de 1974, quando ele começou a estudar violão clássico em Belo Horizonte, com o maestro Nelson Piló, que a atividade ganhou seu primeiro impulso mais concreto. Seus colegas enfrentavam muitos problemas com instrumentos estragados. Lima já tinha jeito com a madeira: em 1973, morara nos EUA com seu irmão mais velho, cursando o segundo grau, e a necessidade de um curso profissionalizante o levou à marcenaria. Esse know-how o inspirou a partir para a restauração. Virou restaurador e abandonou as aulas de violão.

A atividade de luthier, no entanto, só ganhou corpo depois da convivência com o japonês Shiguemitsu Suguiyama, em São Paulo. Veio daí o preciosismo. Suguiyama, quando estava insatisfeito com seus instrumentos, os quebrava.

A convivência com o japonês permitiu a familiaridade e o profundo conhecimento dos instrumentos. “A cintura da viola deriva do alaúde”, explica. E continua: “Havia a necessidade de se segurar e tocar em pé. Por isso, a cintura foi diminuída”.

Aviões

A princípio, o luthier produzia apenas violões clássicos. Mas depois percebeu a qualidade harmônica da viola caipira e passou a trabalhar também com esse instrumento. “Notei que, do ponto de vista técnico, havia preconceito”, diz. Ele lembra que sua primeira viola é de 1984. Hoje, tem entre seus clientes violeiros fiéis, como Roberto Corrêa, que conheceu em 1986, durante o “1º Seminário Brasileiro de Música Instrumental”, organizado por Tavinho Horta em Ouro Preto.

Vergílio Arthur Lima teve também sua fase de “menino experimental”. Trabalhou vários anos com Marco Antônio Guimarães, do Uakti, inventando instrumentos incomuns. Entre os muitos inventos, ele se lembra de um em especial: a viola grávida, criada em homenagem a Marco Antônio Araújo. O nome foi oriundo do formato do instrumento, com “barriga”.

Mas não são apenas madeira ou instrumentos que povoam o escritório do luthier. Em cima de uma mesa, um aeromodelo vermelho exibe sua forma. Lima conta que seu envolvimento com o aeromodelismo começou muito antes da história com a lutheria. “Quando fiz o primeiro avião, tinha 10 anos”, conta. Hoje, o aeromodelismo tem espaço reservado em seu calendário. Ele fabrica instrumentos de segunda a sexta, sem hora para entrar ou sair de seu escritório. Mas, aos sábados, vai para um campo na cidade de Ravena, com amigos, para se divertir com os pequenos aviões. “Aos sábados, sou aeromodelista. Aos domingos, sou pai de cinco filhos”, completa.

Trabalho inclui “estudo psicológico” dos clientes

O processo de trabalho de Vergílio Lima é demorado. Antes de tudo, há a escolha da madeira, que pode ser o cedro rosa, o jacarandá da Bahia, o pinho europeu, o ébano da Índia ou o pau-brasil, todas de aquisição difícil. A madeira tem que ser curtida durante cinco anos, para reduzir o coeficiente de hidroscopia (capacidade de absorção e eliminação de água). “Com o tempo, a hidroscopia cai”, explica Lima. Essa redução é fundamental para evitar a concentração e a dilatação da madeira e garantir a qualidade do som.

A maturação da madeira é feita em um local aberto do escritório, próximo ao teto, à temperatura ambiente e, depois, em uma estufa. “Quando o tempo está frio e úmido”, comenta o violeiro Roberto Corrêa, cliente do luthier e formado em física, que se encontrava no escritório de Lima no momento da reportagem. Difícil é acertar a afinação quando há mudanças de temperatura.

“Uma vez, na China, afinei o instrumento a 20 graus e, no teatro onde fui tocar, a temperatura era de 2 graus. Foi uma loucura afinar”, conta Corrêa, lembrando que a formação musical de Vergílio auxilia muito na percepção desses problemas.

Depois da maturação da madeira, vem a fase do corte. “A madeira tem de ser cortada nas medidas próximas ao uso”, explica Lima. O luthier explica que, com o frio, o ar fica mais denso e o tempo entre o tocar e o ouvir fica menor. A madeira, no entanto, “tem um atraso”. O processo de preparo da madeira é anterior a qualquer pedido. Quando o cliente contata o luthier, começa outro trabalho, mais sutil: o conhecimento profundo do perfil musical de quem busca o instrumento, para permitir um trabalho personalizado.

“A gente visualiza o instrumento pronto. Mas tem que aliar técnica mecânica com a emoção e a intuição”, explica. “Tem pessoas com quem a gente tem empatia, outras a gente não compreende. Às vezes, tento prolongar ao máximo o início da fabricação”, ressalta, como uma espécie de médico de família atento às entrelinhas de cada pedido e cada intenção. Depois do estágio de conhecimento do cliente, vem a fabricação do instrumento, que, em média, consome 160 horas – período no qual ele irá “casar as informações de natureza física da madeira, tais como resistência, flexibilidade, dureza e cura”.

Lima não tem horário determinado para começar ou terminar suas atividades. Ele trabalha sozinho e diz que esse é um dos grandes diferenciais de seu trabalho. “A globalização traz muitos instrumentos importados bons, mas falta adequação à necessidade local. Você não terá a viola caipira de Taiwan que sirva a um violeiro brasileiro”, comenta, lembrando que, numa fábrica, ninguém tem visão do todo, o que dificulta a personalização do instrumento fabricado. “É como se eu estivesse trabalhando na contramão da história”, analisa o luthier.

Violeiro elogia competência de Vergílio

“O principal fato que me liga a Vergílio é sua competência”, explica o violeiro Roberto Corrêa. “É uma parceria. Ele evolui, eu evoluo”, diz, enquanto confere o braço de uma viola caipira que está em preparo pelo amigo. Quando o assunto é viola, Corrêa não quer saber de outro luthier além de Vergílio.

“As pessoas me vêem tocando e querem saber quem fez [o instrumento]”, conta Roberto Corrêa. Desde que conheceu Lima, há 12 anos, o violeiro já adquiriu três violas caipiras de sua lavra.

Nascido em Campina Verde (MG), mas residente em Brasília, Corrêa não deixa de fazer suas visitas a Sabará, não só para se encontrar com o amigo, como também para conferir o dia-a-dia da oficina do luthier. É um compromisso de quem entende do assunto.

Pesquisador de viola e música folclórica, ao lado de sua mulher, Juliana Saenger, Corrêa publicou, em 1983, o livro “Viola Caipira” e tem viajado o mundo tocando viola caipira e a chamada “viola de cocho”, do Mato Grosso.

 Corrêa tem os seguintes CDs lançados: “Uróboro”, “Crisálida”, “Viola Caipira Brasil” (editado na Alemanha, na série “Traditional Music of the World”, da Unesco), “Viola Caipira”, com Renato Andrade, e mais dois discos em parceria com Inezita Barroso.

As violas caipiras de Vergílio Lima acompanharão Roberto Corrêa também em seu novo trabalho, o CD “No Sertão”, em que o violeiro atua como solista ao lado do Quinteto de Cordas, com arranjos de Mauro Rodrigues. O lançamento está previsto para dezembro.

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